terça-feira, 1 de maio de 2012

Mindwalk



Ela não sabia aonde ir. Talvez com o vento, quem sabe com a luz. Só o que ela sabia, quando seu pé cruzou a soleira da porta, era que estava perdida. Estava sem direção, mas definitivamente, o lugar que acabava de abandonar, não lhe pertencia.
Uma rápida conferida no relógio lhe informou que passava das duas e meia da manhã. Arriscado, definitivamente perigoso. Mas era assim que seria, a qualquer momento. Não havia preparação possível. Não havia como diminuir os riscos.
Ela deu o primeiro passo. A porta defeituosa fechou-se com estrondo no momento em que ela soltou a maçaneta, assustando-a um pouco. Ela não sabia se ouvia um grito de “saia!” ou um “adeus, boa sorte”.
Começou a caminhar lentamente. Sabia que estava frio, mas o pesado sobretudo que usava enganava-a dizendo que estava quente. De vez em quando descobria os ombros só para sentir a brisa gelada que a fazia vestir-se novamente. Era assim. Nenhum ponto de equilíbrio, nada era morno. Sempre escaldante ou gelado.
Sou louca? Estou saindo desse vale escuro, desse lugar tão atemorizante, indo em direção a qualquer outro lugar que não seja onde eu estava. Tudo que eu quero é caminhar pela vida sem me sentir tão errada. Quero olhar para o mundo e não vê-lo tão distorcido. É possível que no meio de tantas formas confusas, haja algo de bom? Como seria ver o mundo através dos olhos de outra pessoa? Alguém que sinta prazer em simplesmente falar, conviver, viver?
Muitas perguntas. De novo tantas perguntas. Mas pelo menos agora estava caminhando. Havia poucos postes, a rua era deserta e escura. Mas ela, penosamente, dava um passo atrás do outro. Nem mesmo uma bifurcação a colocava em dúvida. Já chega de duvidar.
Que sonho lindo! Lá onde sou corajosa, forte! Lá, onde eu caminho! Lá, onde não sou apenas esse casulo inerte e afogado, constantemente se deliciando, se alimentando de sua própria arrogância! De seu arrojado sofrimento!
Cada dia está se tornando um passo difícil... mas ela se recusa... se recusa a cair no poço novamente. O problema é que o poço parece faminto, devorador. Está sugando-a lentamente. Sua energia is fading aos poucos. Ela já sente os respingos, a umidade gélida possuindo-a lentamente. Muito lentamente.
Há uma sombra atrás de mim. Assusta-me demais, mas não olho pra trás. De fato, acho que eu devia falar com ela. Talvez ela tenha algo a me dizer. Talvez suas mãos tão ásperas sejam capaz de algum carinho. Viro-me para encará-la. Ela usa um sobretudo. Afinal, está frio.
Porra, me assusta demais.
Ela toca meu ombro. Ela é só sombra, por isso não sinto praticamente nada, apenas uma brisa. Mas aos olhos ela é tão absurdamente densa.
“Vou com você” ela diz, embora não haja boca visível. Sua voz é grave e rouca. Assustadora como o inferno.
“Acho que quero ir sozinha” respondo.
“Não, não quer. Você sempre quer companhia. A minha”
“Não te conheço”
“Eu sei que não. Você nunca teve coragem de olhar pra dentro de você. Como poderia me conhecer? Mas eu estou esperando. O dia que você vai olhar de verdade nos meus olhos. E finalmente me deixar morrer”.
“Não quero que você morra!”
“Eu sei. Afinal, você só tem a mim” ela sorri. Um sorriso apenas sentido, pois não existem lábios “Sou o melhor que você tem nesse momento”.
“Eu sei”
“Vamos continuar?”
Ela assente.
“Anime-se, pelo menos agora estamos caminhando”.

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