Ela
não sabia aonde ir. Talvez com o vento, quem sabe com a luz. Só o que ela
sabia, quando seu pé cruzou a soleira da porta, era que estava perdida. Estava
sem direção, mas definitivamente, o lugar que acabava de abandonar, não lhe
pertencia.
Uma
rápida conferida no relógio lhe informou que passava das duas e meia da manhã.
Arriscado, definitivamente perigoso. Mas era assim que seria, a qualquer
momento. Não havia preparação possível. Não havia como diminuir os riscos.
Ela
deu o primeiro passo. A porta defeituosa fechou-se com estrondo no momento em
que ela soltou a maçaneta, assustando-a um pouco. Ela não sabia se ouvia um
grito de “saia!” ou um “adeus, boa sorte”.
Começou
a caminhar lentamente. Sabia que estava frio, mas o pesado sobretudo que usava
enganava-a dizendo que estava quente. De vez em quando descobria os ombros só
para sentir a brisa gelada que a fazia vestir-se novamente. Era assim. Nenhum ponto
de equilíbrio, nada era morno. Sempre escaldante ou gelado.
Sou louca?
Estou saindo desse vale escuro, desse lugar tão atemorizante, indo em direção a
qualquer outro lugar que não seja onde eu estava. Tudo que eu quero é caminhar
pela vida sem me sentir tão errada. Quero olhar para o mundo e não vê-lo tão
distorcido. É possível que no meio de tantas formas confusas, haja algo de bom?
Como seria ver o mundo através dos olhos de outra pessoa? Alguém que sinta
prazer em simplesmente falar, conviver, viver?
Muitas
perguntas. De novo tantas perguntas. Mas pelo menos agora estava caminhando. Havia
poucos postes, a rua era deserta e escura. Mas ela, penosamente, dava um passo
atrás do outro. Nem mesmo uma bifurcação a colocava em dúvida. Já chega de
duvidar.
Que sonho lindo! Lá onde sou
corajosa, forte! Lá, onde eu caminho! Lá, onde não sou apenas esse casulo
inerte e afogado, constantemente se deliciando, se alimentando de sua própria
arrogância! De seu arrojado sofrimento!
Cada
dia está se tornando um passo difícil... mas ela se recusa... se recusa a cair
no poço novamente. O problema é que o poço parece faminto, devorador. Está sugando-a
lentamente. Sua energia is fading aos
poucos. Ela já sente os respingos, a umidade gélida possuindo-a lentamente.
Muito lentamente.
Há uma
sombra atrás de mim. Assusta-me demais, mas não olho pra trás. De fato, acho
que eu devia falar com ela. Talvez ela tenha algo a me dizer. Talvez suas mãos
tão ásperas sejam capaz de algum carinho. Viro-me para encará-la. Ela usa um
sobretudo. Afinal, está frio.
Porra,
me assusta demais.
Ela toca
meu ombro. Ela é só sombra, por isso não sinto praticamente nada, apenas uma
brisa. Mas aos olhos ela é tão absurdamente densa.
“Vou
com você” ela diz, embora não haja boca visível. Sua voz é grave e rouca. Assustadora
como o inferno.
“Acho
que quero ir sozinha” respondo.
“Não,
não quer. Você sempre quer companhia. A minha”
“Não
te conheço”
“Eu
sei que não. Você nunca teve coragem de olhar pra dentro de você. Como poderia
me conhecer? Mas eu estou esperando. O dia que você vai olhar de verdade nos
meus olhos. E finalmente me deixar morrer”.
“Não
quero que você morra!”
“Eu
sei. Afinal, você só tem a mim” ela sorri. Um sorriso apenas sentido, pois não
existem lábios “Sou o melhor que você tem nesse momento”.
“Eu
sei”
“Vamos
continuar?”
Ela assente.
“Anime-se,
pelo menos agora estamos caminhando”.

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